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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Seja feliz-zzz


Eu não dou “bom dia” quando entro no elevador. Geralmente, nem respondo quando alguém diz. Uma vez ou outra, dependendo da circunstância, sorrio amarelo, sem mostrar os dentes. É um elevador, não é uma sala de estar. Vocês cumprimentam as pessoas na escada? Por que essa sina, então, com elevador? Aquilo é uma caixa em que a gente entra, espera uns instantes e sai em seguida. Quase um meio de transporte. Não é uma festa, não é um sofá, não é a sala da casa da sua avó. Que amizade é essa?
Não trato mal os taxistas, mas não somos amigos. Não sou amigo do motorista do ônibus também. Nem do cobrador. Cumprimento o taxista, porque to entrando no carro dele. O motorista, só se olhar pra mim. Não é uma carona, sabe? Não precisamos passar momentos agradáveis juntos. É um serviço. É o trabalho dele e eu só preciso fazer a minha parte, que é pagar pela dele. É como o garçom, pra quem a gente tem que sorrir e olhar nos olhos, mas não precisa perguntar como vai a vida.
E eu tenho pressa. Muita pressa. Aperto o andar do elevador cinquenta vezes porque acredito que ele vai andar mais rápido. Se estiver sozinho, aperto até chegar. Completo as frases das pessoas no telefone. Interrompo a pergunta se já me sinto pronto pra responder. Costuro no trânsito – e andando também. Pulo canteiro central, atravesso fora da faixa, passo correndo entre as mãos dos casais. Não sei “passear”. É uma angústia, eu sei. Mas tenho pressa pra “chegar”. Amaldiçoo mentalmente quem caminha devagar pelas ruas, quem vê a paisagem, quem não tem horário.
Confio mais nos mapas que nas pessoas também. Na verdade, eu sequer falaria com outras pessoas se tivesse um GPS. Não gosto de desconhecidos. Morro lentamente cada vez que puxam papo comigo na fila do banco ou do supermercado. Ponto de ônibus não é lugar de fazer amizade, é lugar de esperar ônibus. Não é tão difícil.
E, agora, vem essa mulher me dizer que é preciso mudar tudo isso para ser feliz. Que o prazer das coisas está nas pausas. Que devemos conversar com as pessoas, conhecer suas histórias, preocupar menos com horários e estar mais abertos ao inusitado. Deus me livre! Eu odeio surpresas! Todas. Qualquer coisa que não esteja prevista, pra mim, é um pesadelo. Quem essa mulher pensa que é?
Como ela quer que eu preencha meus gestos de gentileza se chego cedo ao trabalho e mentalizo as portas do elevador esmagando a cabeça do meu chefe e acabando logo com isso? Como ela quer que eu preste atenção na beleza do caminho se tenho hora pra chegar? Pra que sair mais cedo de casa se, pra isso, é preciso dormir menos? Que graça existe nos problemas dos outros se eu já rio e choro o bastante com os meus?
Não sou mal humorado, nem ranzinza. Apenas personifiquei e absorvi o individualismo, eu acho. A minha felicidade está em fazer o que acredito que devo e é nisso que concentro todos os meus esforços. Se vou a um restaurante, é pra comer, não pra fazer amizade. Corro, corro, corro e estou sempre atrasado. O que vai ser de mim se, um dia, eu perder essa pressa?
Não acredito em autoajuda, não curto palestras motivacionais e nem acho que alguém tenha o direito de me dizer o que fazer. Nem terapia eu consigo fazer, porque me incomoda demais a ideia de alguém “me entender” melhor que eu – e ainda receber por isso. Ouvir casos é legal, as experiências das pessoas sempre nos ensinam algo, mas tudo é muito relativo porque cada um de nós é diferente.
Mas, hoje, especificamente, constatei algo triste. Ouvi todas as dicas, questionei mentalmente uma por uma, mas não consigo descartar e seguir adiante. Não sigo nenhuma das “regras”. Optei por fazer tudo do meu jeito. Não sou feliz. Também não acho que ela seja, nem que vocês serão ou seriam. Mas eu não sou feliz. Com regra ou sem. Será que essa mulher tem razão? Será que essa palhaçada toda é verdade? Porque eu, sinceramente, não acredito que meus dias seriam melhores se eu acordasse e dormisse sorrindo. Eu sorrio sempre que quero. Eu só não quero o tempo todo.
Eu não sou feliz e, se for mesmo preciso mudar tudo isso, nunca serei. Não seria feliz fazendo todo esse esforço.
Eu não sou feliz!
E, amanhã, serei ainda menos, depois de toda essa noite em claro remoendo isso...

4 comentários:

  1. Eu tenho pressa pra chegar, mas nunca pra sair de casa. Com você é assim também?

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  2. E esse seu post/essa mulher, me lembrou desse texto que postei no meu blog (talvez voce tinha visto já): http://lebleudetesyeux.blogspot.com.br/2011/10/minimamente-feliz.html

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  3. Lisi, to ate orgulhoso do meu texto agora, porque essa mulher de quem eu to falando é exatamente a autora do texto que você postou!!! HAHAHAHAHA

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  4. sobre a pressa, eu to pra fazer um post especifico pra falar de uma mania terrivel que eu tenho. e é isso mesmo. em casa, eu sou tranquiiiilo... hahahaha

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