Páginas

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Átona e à tona, a vida aqui vai


“Elas só ficavam enfiadas aqui em casa, mexendo nas minhas coisas. Pegavam meus vestidos, usavam minha pintura. Depois, melhoraram de vida e nunca mais apareceram.”

“Papai só quer saber daquela mulher do diabo! Aquela piranha! Parece que ele esqueceu que tem filha. Eu ligo pra ele o dia inteiro e ele não quer saber de mim. Tudo culpa daquela demônia.”

“Eu não quero casar. Nem! To velha já. Não casei... Quero ficar sozinha, que eu to melhor. Ninguém vai me obrigar a casar! Ninguém!”

“Cadê minha tesoura? Vocês pegaram a minha tesoura! Minha tesoura, minha escada... Cadê meu machado? Vocês pegaram meus óculos! Eu não tenho mais nada, vocês tão me roubando tudo!”


Ela tem 88 anos e já não se lembra mais das coisas. Na verdade, dia desses, ela acordou achando que tinha 82, e brigou comigo quando corrigi. Diz que não quer se casar porque não ama o pretendente que seu pai escolheu. Ela está se guardando pro caso de aparecer um rapaz de seu interesse. Aos 88 anos, ela ainda espera pelo amor. Mãe de cinco filhos (hoje, quatro, infelizmente), ela foi casada por mais de 40 anos com o meu avô. Um homem ótimo e inesquecível, de quem, talvez por ter morrido logo após o meu aniversário de seis anos, eu não me lembro de ter ouvido nenhuma reclamação. Nunca! Ele era bonito, inteligente, atencioso... tocava violão, cantava e compunha. Até hoje, nos eventos de família, minha tia canta a sua música. Foi um excelente pai, o sogro mais elogiado da história, um amigo estimado por todos... só não era exatamente o que chamamos de um “bom marido”. Ou era, já que os tempos eram outros.
Minha avó nunca precisou trabalhar e, ainda assim, foram a primeira família da rua a ter uma televisão. Criaram os filhos sem nenhum luxo, mas com conforto e dignidade. Quando a geladeira ainda era novidade, ele comprou uma pra fazer surpresa pra família e mandou entregar enquanto ainda estava no trabalho. A noite, ávido pela novidade, abriu a porta para admirar aquele prêmio e encontrou sapatos. Minha avó não sabia o que era uma geladeira – muito menos minha mãe e meus tios. Abriram a porta, viram as prateleiras e encheram de sapatos. Sapatos da família toda.
Moralista, ela ainda faz grandes discursos em defesa da família e dos bons costumes. “Na minha família, não tem isso de traição não”, ela diz, esquecendo-se de que só deu à luz cinco filhos, mas meu avô tem sete registrados. E isso nunca foi segredo pra ninguém. Outra coisa de que ela também se esqueceu, e isso é extremamente positivo, é da violência, afinal, ela apanhou, durante muitos anos, do meu avô. E, quando eu digo que as pessoas só o elogiam, eu não ignoro esse fato. Até isso, os amantes de sua memória justificam. A época, os costumes, o machismo... e, infelizmente, o temperamento da minha avó. Porque, é claro, nenhuma mulher merece apanhar. Mas, numa estrutura social em que isso é permitido (como era e, infelizmente, ainda é em alguns lugares), é necessário ter alguns cuidados especiais que ela nunca teve. Tanto que ela apanhou durante anos e anos, até o dia em que reagiu e a briga ficou feia. Mas foi a última.
Minha avó era geniosa, dramática, ciumenta e muito possessiva. Sua vida foi tão influenciada pelos costumes da época que ela chegou a se separar do meu avô, mas nunca se divorciaram, nem deixaram de viver na mesma casa. Última filha a casar, já órfã há muito, ela não teria sequer para onde ir. E o mais estranho é que, embora ela tenha “dedicado a sua vida” a cuidar dos filhos, também esses se lembram mais (e com mais carinho) do pai. Minha avó é o exemplo vivo daquele tipo (cada vez mais comum) de pessoa que não consegue sublimar o seu próprio sofrimento e passa a vida sofrendo num canto da sala, até que envelhece e morre.
Nunca fomos muito próximos – porque eu sempre estive longe de ser o neto preferido –, mas, hoje em dia, desenvolvemos uma relação muito bonita. Às vezes, ela tem algumas crises de fúria: grita, xinga, chama a Polícia, bate nas cuidadoras... toca o terror, deixa a casa toda de cabelo em pé. E só o que a faz se acalmar é me ver. E, se eu não estou em casa, ela passa horas chamando o meu nome. Ela se sente mais segura quando eu estou por perto.
A maior preocupação dela é sempre com dinheiro (e só entende isso quem conheceu uma certa filha dela, minha tia, bandida a vida toda!). Todos os dias, ela me pergunta se tem pão e se ele vai dar pro dia todo, quem vai comprar mais quando acabar e quando é que eu vou começar a trabalhar para ajudá-la “nos gastos”. Dorme abraçada com uma bolsinha de dinheiro, porque diz que já foi muito roubada nessa vida (e foi mesmo!), e, às vezes, manda me chamar pra entregar a bolsinha e pedir pra guardar porque “só confia em mim”. Diz que alugou umas casas e quer que eu cuide de receber o dinheiro e entregar pra ela. E, claro, sussurra o tempo inteiro me pedindo ajuda pra fugir. Diz que não sabe o que está fazendo naquela casa, que não mora lá e que quer voltar pra rua das Cavalhadas, atrás da igreja – que foi onde ela passou a infância. Só que ela é quase surda e o cochicho dá pra ouvir até no portão. Por algum motivo, ela associou o meu rosto a sentimentos bons e isso faz com que ela se entenda muito bem comigo, mesmo quando eu não a ajudo a fugir...
Essa convivência próxima só tem me comprovado uma suspeita. Ser uma mulher perfeita para o seu tempo foi o que destruiu a vida da minha avó. Não digo que ela não tenha sido feliz, mas tenho certeza de que faria muita coisa diferente se tivesse podido escolher. Ela se casou sem amor, apanhou, foi traída, não trabalhou, nunca teve com o que se ocupar – porque, embora os afazeres domésticos exijam dedicação, ela teve quatro filhas moças, que aprenderam a fazer tudo desde cedo. Mais triste que ver a minha avó delirar, é ouvir o conteúdo dos seus delírios. Minha avó bebia pinga, dançava congado, carregava os netos e era brava, muito brava, mas ria de tudo quando estava num bom dia. Era uma companhia agradável, quase sempre foi. E, hoje, em seus últimos dias, tornou-se uma pessoa profundamente triste. Nos momentos de lucidez, ela se lamenta por inúmeros acontecimentos, mas é um sofrimento contido e tocante. Nos momentos de demência, ela chora e grita compondo cenas muitas vezes chocantes. A única regra, na sua rotina, é o sofimento.
Ela se esqueceu, felizmente, da filha que morreu atropelada em 2004, mas chora todo dia pelos mortos no “acidente do ônibus de Nova Lima”, que aconteceu antes da minha mãe nascer. Chora pela indiferença dos pais, diz que foi abandonada pelos irmãos, só que estão todos mortos – e, mesmo quando eu conto isso pra ela, o choro aumenta por um tempo, ela dorme em seguida e acorda perguntando tudo outra vez. Eu entendo a demência, a memória, tudo. Mas o fato de todos esses delírios serem sempre tão tristes, eu não consigo atribuir a nada que não seja essa vida “adequada”. Minha avó nunca acordou feliz, nunca achou que é rica, nunca reviveu um momento de alegria, nunca teve um delírio feliz. Será que é tão difícil? Suas memórias reduziram-se a tragédias. E, hoje, tudo o que ela faz é chorar e temer. Temer o fim do pão, a casa “desconhecida”, a possibilidade de ter que dormir sozinha... E chorar pelos pais e irmãos, pelo sumiço da tesoura, pela escada que emprestou e nunca devolveram...  pelos óculos, o batom, o sapato.
Acompanhar, de perto, as tristezas da minha avó tem me feito repensar as minhas. A cada lamento, hoje, eu me imagino velhinho. Trabalho, falta de umidade do ar, solidão, dinheiro, carreira. É sobre isso que eu vou falar no futuro? Meus delírios vão envolver fichas de alunos, livros da biblioteca, o boleto do cartão de crédito e o carregador do meu celular? É com isso que vou povoar minha mente quando ela se esvaziar? Será que não estou repetindo os mesmos erros da minha avó e me dedicando demais a ser o que melhor modelo do que se espera de mim? Não que eu precise fugir com o circo pra delirar sobre elefantes, viagens e palhaços, mas será que eu não vou sentir falta de mais emoção?
Minha avó andou na linha a vida inteira e, hoje, eu quase me arrisco a dizer que seu maior sonho é ser pega de uma vez por todas pelo trem...