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terça-feira, 13 de novembro de 2012

Hoje tem.

Comprei camisinhas ontem.
Ok. Pode tirar esse sorrisinho da boca. É dele mesmo que eu quero falar. Por que as pessoas têm esse fascínio todo com as camisinhas alheias? Eu já tinha me esquecido, porque a última vez que comprei uma camisinha foi há mais de três anos (não vou responder nenhuma pergunta a esse respeito!), mas é impressionante o olhar das pessoas. Aquela cara de “hoje tem”, aquele sorriso cúmplice... Quem foi que falou pra você que hoje tem, meu amigo?
As pessoas não compram camisinhas regularmente não? Não é tipo “item de compra do mês”? Porque deveria ser. A moça do caixa foi até bastante indiferente, mas meus colegas na fila estavam em polvorosa. Achei que eu precisaria me explicar, dizer “moça, meu horóscopo mandou estar sempre prevenido porque o amor vai aparecer essa semana”, ou “são pro meu amigo”, “meu pai que pediu”, sei lá...
Eu queria não me importar com o olhar das pessoas e fazer minhas compras em paz, mas não consegui, infelizmente. Eu até achei que pudesse, tanto que, além de tudo, estava numa loja de cosméticos – com vinte mulheres por metro quadrado. Escolhi desodorante, xampu, talco pros pés... e camisinha. Na verdade, a camisinha, eu não escolhi. Peguei correndo, enfiei na cestinha, baguncei pra que misturassem com as outras compras... tudo em vão. A sensação é que minha cestinha tinha ficado neon e que, a cada passo, uma voz repetia “camisinhas, camisinhas, vejam só, ele comprou camisinhas”.
Paguei pelas compras, pus tudo na sacola, recolhi o que restava da minha dignidade e, vermelho, segui de volta para o trabalho. No caminho, as pessoas ainda me olhavam. Estava escrito na minha testa? Não. Pior! A sacola era quase transparente e o pacote estava virado pra frente. Todas as pessoas mais baixas que eu viam primeiro a sacola e, em seguida, olhavam pra minha cara. Sorriam, diziam “hoje tem” com o olhar e me deixavam mais constrangido a cada instante.
Se as pessoas se comportam assim quando um homem compra camisinha, o que fazem se uma mulher pede um teste de gravidez? Aplaudem? Abraçam e perguntam pelo “casório”? E se ela compra uma pílula do dia seguinte, eles mandam prender? Batem na cara dela e chamam de “assassina”? É esse deslumbramento que a vida íntima dos outros causa nas pessoas que fundamenta, até hoje, uma série de preconceitos e indelicadezas. Quando é que todos nós vamos crescer?
E, como se não bastasse todo esse constrangimento, na correria dos olhares e sorrisos, eu não escolhi a camisinha. Peguei a que tava na frente, joguei na sacola e não li. Só depois, guardando as compras, eu vi que a situação era ainda pior que o imaginado. O “hoje tem” não era só o “hoje tem” comum, era um “hoje tem DE TUTTI-FRUTTI”...


[Impossível não lembrar da Vani.]