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quarta-feira, 6 de março de 2013

Ricky Martin - Eu

Estou tentando, há alguns dias, me adiantar na leitura da biografia do Ricky Martin (“Eu”). Digo “me adiantar”, porque a leitura parece não render e, após mais de uma semana, eu acabo de chegar à página 37. Sei que é cedo para julgar um livro, mas receio que não passe disso e vou acabar não falando sobre ele.
Para começar, a melhor parte é a capa. Não que o livro seja ruim, eu nem cheguei longe o suficiente pra dizer isso, mas a capa é maravilhosa, não dá pra competir. É muito difícil um texto, por melhor que seja, vencer um Ricky Martin sem camisa, com a barba por fazer, numa foto em preto e branco. Deixo sempre perto da cama, pra ser minha primeira imagem de manhã. Inclusive, eu acho que gosto (muito) mais de carregar esse livro que de o ler efetivamente.
O problema todo, na verdade, é o tom que ele usa. Esse é o grande perigo das autobiografias: o tom que você usa pra falar de você. Pode soar prepotente, pode soar imbecil... Nesse caso, especificamente, eu sinto um enfoque muito grande na autoajuda que faz a narrativa parecer quase infantil. Ricky Martin reproduz, logo nas primeiras páginas, a oração que faz a Deus e ao espírito de sua avó pedindo para se lembrar da canção de ninar que ela cantava para ele e os primos na infância.
Existe um limite muito tênue entre o íntimo e o desnecessário e reproduzir uma oração ao espírito da sua avó, para mim, rompe essa barreira como um caminhão desgovernado. Por algum motivo (ok, eu sei que foi o outing, só não vou dizer isso), o cantor pesou a mão na abordagem psicológica da sua história, talvez para que outras pessoas se reconheçam nela. Entendo a intenção, mas, para cada fato narrado, são dois parágrafos de reflexões profundas introduzindo e mais dois, ao final, comentando. Ficou chato. Parece muito claro que a única ou maior intenção do livro é servir de roteiro e apoio a jovens que querem aprender a lidar com a homossexualidade e a história da vida do cantor/ator é apenas a desculpa encontrada - e a estratégia de marketing. Tudo é muito artificial, exceto as palavras de apoio e incentivo à superação.
Não sei se me sinto assistindo a uma sessão de análise do autor ou lendo o seu diário, mas é tudo tão justificado, tão comentado, tão agradecido... quero emoldurar essa capa de modo a não conseguir passar mais as páginas. Se a intenção era levar o leitor para dentro da mente do autor, parabéns! Só que a intimidade excessiva torna até um galã menos interessante.