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segunda-feira, 22 de julho de 2013

Desculpa, Vó!

Aí que, entre os inúmeros eventos programados pra recepção do Papa Francisco, um roubou toda a atenção: o beijaço gay contra a discriminação apoiada pela Igreja. E que repercussão! Os principais veículos noticiaram e a patrulha hater não fala em outra coisa nas redes sociais... Uma ex-colega de escola compartilhou, no Facebook, o link com a frase “Tremenda falta de vergonha na cara!” e já foi logo acompanhada por uma moça: “Achei uma falta de respeito sem tamanho!”. No Twitter, conhecidos e desconhecidos comentaram a minha indignação com pérolas como “só não tinha necessidade” e “se isso fosse mudar a mentalidade do cara, mas vai ficar na mesma, então, não tem sentido”.
Então é isso, gente. Voltamos no tempo e cada um de vocês, agora, é livre para viver o resquício de Idade Média que vem tentando ocultar no fundo do coração. Não precisam mais esconder. Do outro lado do mundo, a Europa parou pra ver o filho da Princesa Kate nascer. Tá na moda ser “antigo”.
Em meio à discussão, a moça do Facebook se explicou. Ela não é “contra essas pessoas que lutam por seus direitos”, só achou “as circunstâncias inadequadas”. Essas pessoas poderiam fazer seus protestos em qualquer outro lugar, mas não “em frente à casa de Deus”. É claro que é direito dela, e de quem mais assim quiser, acreditar nisso. Ser católico, evangélico, ateu... Dizer quem vai pro céu e quem não vai. Mas é meu direito, também, não acreditar e não pensar assim.
Quando a Dilma foi vaiada, em Brasília, na abertura da Copa das Confederações, um amigo muito querido disse que “o povo brasileiro não tem educação”. Segundo ele, os brasileiros têm todo o direito de protestar, mas não deveriam fazer isso na abertura da Copa, quando a mídia mundial registraria “tamanha deselegância”.
É o mesmo raciocínio, percebam. Pra quem espera (como eu) um pouco mais das novas gerações, é um balde de água fria ver o que nossos jovens estão se tornando. Somos como filhos criados pelas avós. Já aprendemos que leite com manga não mata, mas é feio demais desmentir a vovó na frente das visitas. Sabemos que homossexualidade não é doença (e, vira e mexe, até rimamos uma coisa ou outra com “igualdade” em nossos discursos), mas, se a vovó diz que aquele velhinho é o gerente de Deus na terra e pode escolher quem tem perdão e quem não tem, é muito difícil não acreditar. Eu entendo. Ela fala com tanta certeza, não é? Aí, a gente cresce assim, sem duvidar...
O Papa, a igreja católica e as nossas avós, agora, devem estar escandalizados mesmo. Mulher beijando mulher? Na porta da igreja? Na frente do Papa? Essa ficha de pecados tá maior que as desigualdades... “Que desigualdades, se foi Deus quem quis assim?”, elas perguntariam. E não há o que responder. Há?
Acontece que esses beijos não eram pra eles. Pelo menos, não somente. Não era só pro Papa se sentir desconfortável, coitadinho! Não vai fazer ele mudar de ideia mesmo, nem a igreja. É muito difícil convencer alguém de algo diferente do que prega a sua fé. Mas é preciso que cada um de nós saiba até onde vai a nossa fé – e até onde vai a nossa fé? exatamente! até o limite das nossas ações. passou de nós, vira imposição, e Deus não quer ver você impor.
Os beijos eram mais um recado. Uma forma de mostrar, à Igreja e ao mundo, que o fato de o nosso governo gastar essa fortuna com a vinda de UM líder de UMA religião, num país múltiplo (e nunca é demais repetir!) laico como o Brasil, não significa que os brasileiros estejam de acordo com isso. Não sei o que Francisco esperava de nós, mas o beijaço é o retrato do que (alguns de) nós esperávamos dele: uma nova Igreja. Mais amor ao próximo e menos julgamento e discriminação.
A mensagem ficou, pelo menos. Pras nossas avós, o recado era simples: vó, os tempos mudaram. Para a igreja: os tempos mudaram e vocês não. Para o Papa: os tempos mudaram e a igreja não mudou. Você não tá vendo isso?
Que o mundo e a igreja percebam que o Brasil não está (pelo menos, não todo) mais na Idade Média. Que o mundo e a igreja entendam que não há mais lugar para uma religião (na verdade, para nada) que pregue o preconceito. Que o mundo e a igreja evoluam como o tempo e os costumes evoluíram. E que você, hater de hoje, faça parte dessa igreja e desse mundo, e aproveite a chance pra evoluir também...