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domingo, 18 de agosto de 2013

Lá vem a noiva

O sonho dela era se casar. “Um dos”, ela dizia, já que sonhava com casamento, filhos, carreira... Mas o sonho do casamento era especial. Tinha endereço, formato e quase urgência. Ela se casaria de branco, na Igreja de Lourdes, usando o maior véu que pudesse arrastar. Um sonho comum, na verdade. Tão comum, que a fila de casamentos para essa igreja estava beirando três anos em 2010. E foi por saber disso que, um dia, ela saiu mais cedo do trabalho e subiu a Rua da Bahia já emocionada. Marcou a data. Segundo semestre de 2013. O funcionário estranhou quando ela não quis dizer o nome do noivo. Era procedimento padrão perguntar e ele avisou que o padre talvez nem aceitasse a marcação de um casamento assim.
- Pois diga a ele que esqueceu de perguntar.
- E eu ia esquecer uma coisa dessas, moça?
- Então diga que eu esqueci.
E ficou marcado o casamento. Sem noivo e sem que ninguém soubesse. Na verdade, algumas pessoas souberam sim, mas poucas. Só o suficiente para que, com o tempo, o imbatível e irremediável telefone sem fio da família cuidasse de avisar a ele, o namorado. Sim. Ela tinha um namorado – e nem era recente... À época, já namoravam há cinco ou seis anos. Ela só não quis contar a ele "para não parecer pressão". Mas também não queria esperar mais pelo pedido. Marcou a data para garantir o sonho. Reservou a igreja com três anos de antecedência por acreditar que, nesses três anos, o pedido poderia ocorrer. E, nesse momento, ela já teria economizado algum tempo de fila.
Até aqui, tudo parecia uma história normal. Uma noiva comum, um sonho comum, uma atitude esperta, mas talvez comum também, não sei. O que pouca gente sabe (e sabia) é que ela estava decidida a se casar naquela data. Com ele ou não. Mas “e se terminar?”, “e se ele morrer?”, “e se ele não quiser?”. Nenhum “se” a assustava. A efemeridade que tingia de cinza todos os seus pensamentos dava-lhe, ao menos, coragem para buscar realizá-los, o mais breve possível, independente do quanto custassem. Sentimento compreensível para uma vítima da esclerose múltipla.
Ela sonhava em se casar, mas dizia que entenderia se ele não quisesse. Casar-se com ela, em suas palavras, seria assumir um “compromisso de muito risco, mais risco que o normal”, já que sua saúde se tornaria “um problema” cedo ou tarde, inevitavelmente. Ele gostava dela e queria realizar esse sonho, mas acompanhava os (muitos) casos familiares, que ela nunca escondeu, e via com tristeza e certo desânimo o que o futuro lhes reservava.
Do casamento, no entanto, ela não abria mão. Abria do noivo, mas não da cerimônia.
- Ele tem o direito de preferir uma mulher saudável, que vá ajudar a criar os filhos, que tenha alguma chance de viver muitos anos ainda e com saúde – ela dizia –, mas eu tenho o direito de me casar na Igreja de Lourdes.
E tinham mesmo.
O final da história, eu confesso que não sei. Perdi o contato com os "noivos". Mas também não sei qual final eu prefiro. Cada um de nós tem o direito e o dever de buscar, por si mesmo, a sua felicidade. O grande problema é que a felicidade, vira e mexe, envolve mais alguém, e esse alguém também quer e deve ser feliz. Com ou sem a gente. É impossível ser feliz sozinho, eu sei, mas não seria arriscado demais depender dos outros?