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terça-feira, 15 de outubro de 2013

Acelera o movimento!

Ontem, eu descobri que, em algum lugar abaixo de toda essa fofura, vive um ser humano forte, muito forte. Isso porque, como disse que desejava fazer, eu realmente levantei da cadeira e fui pra academia. Triste, repensando minha vida e minhas escolhas e lamentando cada passo que me deixava mais perto daquele templo da dor... mas fui! Só que não me deixaram começar porque minha avaliação física seria hoje e não é aconselhável gente sedentária fazer exercício antes da avaliação. Nem esteira? Nem esteira!
Oh, glória! Segui com a alma lavada o caminho pra casa e tudo teria sido lindo se eu não estivesse morrendo de fome (essa coisa toda de regime já tá me fazendo bem mal).
- Não tem nada pra comer não, mãe?
- Tem! Pão integral.
- Pão integral? E eu vou comer só isso?
- Você não acha que deveria me agradecer não, seu gordo?
Nessas horas, eu sinto falta de ser adolescente e poder correr pro quarto chorando. Correr pro quarto segurando o choro não tem o mesmo impacto. Mas fiquei realmente chateado e teria passado o resto da vida trancado lá dentro, não fosse a fome, que tava mesmo de matar. Comi o pão integral e acho que sonhei com uma pizza. “Acho” porque não sei dizer se sonhei ou só dormi e acordei pensando em uma pizza de pepperoni, daquelas que a Pizza Hut (R.I.P.) vendia.
Daí, hoje cedinho, foi a vez da tão temida avaliação. É a segunda vez que eu faço avaliação física nessa academia (a primeira foi em 2010) e nada mudou. A sala, o aparelho, o procedimento, as perguntas... Eu achava que ser servidor público era cansativo e pouco desafiador, mas ser fisioterapeuta de academia não me parece uma idéia muito melhor – seguindo esse critério. A única diferença, e muito positiva, é que o fisioterapeuta de agora é um rapaz comum, cuja parte mais bonita é uma aliança cromada e muito brilhante. Em 2010, o fisioterapeuta parecia um modelo. Era tão bonito, que cada gordurinha mordida por aquele alicate doía no meu coração e caía como uma sentença penal condenatória na minha auto-estima. Desculpa se eu nasci! Sorte minha, porque o resultado dessa avaliação foi bem mais vergonhoso e eu teria ainda mais dificuldades em lidar com ele há três anos.
Descobri que estou acima do peso, sou sedentário, tenho asma e escoliose. Então, percebam quantas novidades essa manhã me reservou.
Eu tinha mesmo pensado em fazer o acompanhamento da minha nova vida no blog, com fotos e tudo mais. Mas repensei isso também e, meu Deus!, onde eu estava com a cabeça? Eu sofro pra ficar de sunga na praia. Com que cara ia tirar foto da minha barriga de perfil e postar na internet? Não faz o menor sentido!
Daí, pensei em divulgar só os números, mas decidi por não fazer nada. Vou dividir com vocês somente a amargura que invade meu peito agora. Nada diferente disso. Tem sido bastante difícil lidar com as cobranças da sociedade, não quero mais gente pra dizer que meu peso não está diminuindo. Só adianto que minha avaliação disse que meu “peso ideal” é 74 kg. Tá vigorando algum meme ou novo dialeto em que “ideal” é sinônimo de “impossível”, porque, no ano passado, eu pesava 79 e houve quem me perguntasse se eu estava com AIDS. Não tem cabimento eu pesar 74 kg. Tenho 1,84m de altura e essa regra de “dez a menos que os últimos números da sua altura” só vale quando a gente é criança. Então, determinei, da minha cabeça, que meu peso ideal é 80 (que é muito mais que 79, percebam) e estou olhando bem diferente pra esse tanto de gráficos e medidas agora.
Fui pro trabalho e voltei na hora do almoço (meu sobrenome é “perseverança) pra montar a ficha. O instrutor leu minha avaliação e relembrou, pra que eu não me esqueça nunca, todas as novidades que o fisioterapeuta já tinha me contado. Escolheu rapidamente o que eu faria e foi me explicar um por um dos exercícios. SEM ALONGAMENTO! No seco mesmo. Eu saí do restaurante direto pra um supino inclinado. E eu achei que ele só ia me explicar como faz, mas não! Eu tive que fazer uma série de cada um. Resultado: nem comecei a malhar e já estou dolorido.
Ele foi muito atencioso, mas superestimou a minha força em alguns momentos, como quando colocou o equivalente a duas caçambas e uma mulher grávida no leg press 45° e eu tive que pedir pra tirar com sinais, já que minha voz me abandonou imediatamente, junto com toda a pigmentação da minha pele.
A única vantagem de já ter feito academia tantas vezes na vida (“quatro meses por ano, tipo imposto de renda”, como eu disse ao instrutor), é que eu já sabia fazer quase tudo. Isso me deu até certa credibilidade nesse povo, porque eu tenho que fazer sempre os mesmos exercícios, o que é sinal de que aqueles exercícios têm mesmo alguma finalidade específica; que todo mundo concorda com o que eu preciso fazer; e, principalmente, que eu nunca fiz direito, já que volto sempre pra estaca zero. Importante ressaltar que eu odeio todos esses exercícios e essa ficha é como um karma, um bis in idem ou uma praga bumerangue que alguém rogou na minha vida.
Outra prova de que ele superestimou meu condicionamento foi quando mandou fazer 15 vezes uma abdominal estranha, eu disse que não conseguia e ele respondeu “tá bom pra mim se forem só dez, vamos lá? Uuumm...”. Pra ele, eu imagino que estivesse bom mesmo. Dez, vinte, cinqüenta e oito... Pra mim, é que não tava! Senti, um por um, todos os órgãos do meu corpo. Mas fiz as 15, sabe Deus como!, porque eu não sou de levar esse tipo de desaforo pra casa.
Não bastasse essa afronta, ele não sabia contar (não quero acreditar que ele era só filho da puta!). Eu tava na 19ª repetição das coisas e ele vinha com “doooze, doooze, treeeeze, doooze...”. em tempo de eu abraçar o aparelho e começar a chorar!
Parece ruim o bastante ou eu ainda posso contar que ele repetia toda hora “acelera o movimento, acelera o movimento” e me deixava ansioso e angustiado, puxando os pesos rápido como se o dono deles fosse voltar a qualquer momento e me bater?

A única parte boa (porque eu ainda estou achando graça nisso) é o papo dos coleguinhas. Academia e cursinho são os dois melhores lugares do mundo para se conhecer a espécie humana. Principalmente se você estiver inclinado a se matar.


OBS.: Eu prometi ouvir músicas alegres, que me motivassem, mas não tenho conseguido enganar assim meu coração. A trilha sonora da esteira hoje será:
 VOCÊ VAI SENTIR NA PELE A DOR QUE EU SENTIIII.

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