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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Vai, gordinho!

Socorro! É uma emergência!
Não comecei a ter problemas com peso hoje. Nem ontem. Fui um bebê redondinho, uma criança bem fofa, um menininho magrinho, depois bem gordinho, um adolescente esquelético e barrigudinho e, agora, no auge dos 24 anos, um recém-casado já pai de dois filhos. Não me casei, não tive filhos, mas é assim que me sinto. Aquele barrigudo, já meio flácido, de camisa pólo amarela pra dentro da bermuda cáqui.
Mas o fato é que não fui sempre assim. Uma ou duas vezes por ano, eu me canso do olhar de censura das pessoas e prometo mudar de vida. É muito difícil ser gordo no mundo. Não é difícil engordar (e estou eu aqui comprovando isso), mas ser gordo é um inferno. Ninguém respeita gordos. Negros e gays, ainda que nem todo mundo “aceite”, é (cada vez mais) raro (feliz e finalmente!) ver alguém desrespeitar. Mas gordo... Todo mundo sabe uma piada sobre gordo e ninguém quer guardar ela só pra si. Você não precisa virar a direita e seguir cinco metros se tiver um gordo no caminho. Quer referência melhor? É só pegar a direita depois da gorda.
Ninguém quer ser do time do gordinho na escola. Ninguém admite que quer chegar na gordinha nas festas. Dizem que a única forma de um homem encerrar uma discussão com uma mulher (ainda que crie um problema muito maior) é chamar ela de “gorda”. É um xingamento também, vejam só. Tudo o que envolve gordo é, de alguma forma, engraçado pras pessoas. E eu sei disso porque não sou gordo, estou engordando. E as pessoas me tratam como se tentassem me salvar de um mal. Como se eu estivesse vendendo minha alma a prestações e só elas pudessem abrir meus olhos. Todo mundo quer me socorrer desse lado pesado da força.
É muito fácil saber quando a gente engordou. As roupas param de servir, o reflexo fica maior no espelho, o peso maior nos joelhos... é bem fácil mesmo. Ainda assim, não há uma pessoa que não me interpele sobre isso.
Nossa, você engordou! É, acontece.
Caio, o que houve? Comi muito.
Por que você não procura uma academia? Porque eu não gosto.
Nossa! Você tá diferente! O que foi que houve? Comi sua mãe!
Meu peso é problema de todo mundo. Deve ser porque todo mundo paga minhas contas, compra minha comida, minhas roupas e me carrega da cama pro trabalho, suponho.
Essa minha revolta não se estende a todo mundo. Minha mãe, dia desses, me chamou pra conversar. Era domingo, quase uma hora da tarde, eu estava de pijama, todo descabelado, saindo do quarto pela primeira vez naquele dia, e ela me esperava apreensiva. Caio, quero conversar com você. Socorro! Contando que, em conversas assim, minha mãe já disse coisas de desafiar as leis da Física, sentei logo, preocupadíssimo e mudo, pra que nenhum som atrapalhasse a minha compreensão.
Por que você não contrata um personal trainer?
Eu não sei vocês, mas tenho uma política de me obrigar a entender minha mãe. É preocupação, né?! Ela não necessariamente quer que eu emagreça porque é desprezível ter um filho gordo (como é desprezível ter filho assim ou assado). Ela só não quer que eu sofra. Só não quer que eu seja o gordinho referência das informações dos pedestres. Nem quer continuar ouvindo a parte pesada dos comentários, que as pessoas fazem com ela, depois de iniciarem o assunto comigo.
Não muito tempo depois, ainda no ambiente familiar, vi uma parente gorda ser assunto de longas e animadas conversas. Bonita, mas gorda. Inteligente, mas gorda. Gorda, gorda, mil vezes gorda! Foram desabafos e reclamações, todos com tom de piada, porque ela gorda e é assim que a gente faz com quem não cabe no nosso abraço. A gente humilha. Gordos, gays e feios têm duas coisas em comum: a marginalização e a obrigação de ser legal. Você pode ser gay se tiver humor ácido e divertir todo mundo nas festinhas. Você pode ser gordo se fizer piada com você mesmo. Você pode ser feio se for gentil e espirituoso. Agora, experimente ser gordo e mal humorado... é inafiançável.
Eis que esse mesmo parente me disse (e ele não tinha esse direito!) algo como a gordura é um caminho sem volta e você está bem perto de transformar isso num problema. Foi bem chato, sabe? Ver ele posar de preocupado como se fosse mais um pra me estender a mão nessa “luta contra a possessão do bacon”. O fato é que foi a gota d’água e, cansado desse tipo de comentário, eu decidi ressuscitar uma das resoluções do ano novo. Estabeleci uma data, escolhi a academia, comi tudo o que pude pra me despedir e prometi tirar esse argumento da boca miúda desse povo. Já tenho coisas demais pra apontarem. Infelizmente, eu ainda me incomodo um pouco com o que as pessoas dizem.
O maior motivo, no entanto, nem foram essas críticas e os inúmeros e inconvenientes comentários. Eu confesso que, uns cinco ou seis quilos atrás, eu estava mesmo com um corpo que me agrada. Não fui exatamente favorecido pela diagramação e uns quilinhos “a mais” deixam meu rosto mais vistoso, me dão alguma bunda e tornam várias posições bem mais confortáveis. As minhas roupas é que já não estão de adequando mais. Metade das calças não fecha. Das que fecham, a metade faz barulho quando eu ando. Acho que só duas servem. Minhas blusas-de-trabalhar também não entram. Estou bem perto de só vestir camisa social (sem nenhuma necessidade ou obrigação). E camisa social com calça jeans, porque nem minha consciência cabe no meu terno atualmente. Parece mais barato emagrecer que comprar tudo outra vez. E mais elegante que sair na rua enrolado no meu lençol. Além de eu ter desenvolvido asma depois de velho, embora eu não saiba exatamente se isso tem a ver com peso (porque, com sedentarismo, eu imagino que tenha).
Embora eu tenha decidido emagrecer, engordar não me fez perder a auto-estima, nem nada parecido. Inseguro, eu sempre fui. E preguiçoso também. Quero um corpo que me possibilite ter saúde e conforto, não quero ser escravo do tanquinho, nem ter que malhar domingo. Domingo é dia de dormir! Não vou tentar carreira de stripper, então ficar bonito pelado não é uma prioridade. Se eu voltar a ficar bem nas minhas roupas, já será uma vitória.
Daí, eu decidi fazer disso uma coisa divertida. Render-se às exigências sociais já é suficientemente vergonhoso pra ser feito com pesar. Ia criar um blog pra isso, com fotos e relatos dos meus dias de “vida nova”, que seriam apenas lamentações, obviamente. Estava combinando tudo. Hoje, eu escreveria um texto sobre meu novo primeiro dia na academia e postaria depois, quando já tivesse algum material pronto. Só que eu voltei de férias e coloquei tudo em dia no trabalho. Eu não precisava ter feito isso. Poderia ter feito uma parte e ido malhar, mas não. Fiquei aqui e fiz tudo. Li todas as timelines. Mais de uma vez cada uma. Olhei pro teto, pras paredes. Abri um livro e decidi estudar. Aí, ficou tarde e eu quero ir pra casa.
Minha vida nova começou exatamente como a antiga.

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