Páginas

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Tanto Amor

Você nunca vai me entender porque nunca amou ninguém como eu amo ele...
Ninguém jamais entenderia o tamanho e a força daquele sentimento. Era amor demais. A Mocinha tinha encontrado o pai dos seus filhos, o homem da sua vida, o Mocinho do seu dramalhão mexicano. Era ele! Não parecia ser e, talvez, nem ele soubesse disso, mas era. Ela sabia. Ah, quanto amor! Tanto, mas tanto, que incomodava todos em volta. Invejosos que nunca haviam sentido ou vivido algo parecido e não entendiam nem apoiavam a Mocinha, coitadinha. Sempre tão só até então. Desamparada, vítima do mundo e de todo mundo. De repente, completa!
Vocês são umas bobas! Tá ruim o casamento? Separa! Eu que não quero crescer retardada desse jeito. Homem nenhum vai me fazer sofrer.
O Mocinho era tão jovem. Novinho, novinho, mais novo que ela. Idade essa que não combinava com sua maturidade. Suas vontades, seu comportamento, as besteiras que falava... sua idade mental era ainda menor que a do RG e isso não era segredo pra ninguém. Nem pra ela. Mas ela entendia. Não se sentia no direito de cobrar um comportamento exemplar porque todo mundo tem defeito. E, entre não exigir a perfeição e se contentar com um defeito ou outro, a Mocinha perdeu a noção do ridículo e do respeito, e aceitou todos. Os gritos, as ausências, as exigências, a burrice...
Mas, coitado, ele tem problema, ele precisa de ajuda. Ninguém é perfeito. Eu não sou, não posso cobrar isso dele. Eu tenho é que ajudar!
Ele decidia ir embora no meio da madrugada e ela o acompanhava com a sombrinha até o portão, porque tava chovendo. Ele voltava atrás e ligava pra ela abrir o portão de novo. E ela abria. Ele foi embora da festa porque colocaram uma música que ele tinha mandado não tocar. Ela foi junto. Ele saiu sozinho e sem dar nenhuma explicação no dia em que ela chegou pra visitar. Ela ficou em casa entendendo. Coitado, ele fica muito nervoso e surta.
Se tivesse dado certo, todo mundo ia tá me dando parabéns agora...
Eles iam ser muito felizes juntos. Idade não quer dizer nada. Todo mundo sonha em viajar, conhecer vários lugares, curtir muito a vida antes de casar... mas é perfeitamente possível fazer tudo isso acompanhado. Quem já encontrou o amor, ainda que no começo da vida, pode muito bem se unir a ele de forma definitiva. Não é obrigatório namorar muito tempo se você já sabe que vai dar certo. Ela sabia. E foi por isso, foi pensando assim, que a Mocinha decidiu fugir com o Mocinho. Não era exatamente uma fuga, já que ela não tinha a quem dar satisfações. Mas, em segredo ou nem tanto, ela abandonou o emprego, trocou a faculdade, juntou os panos e foi viver com ele em outra cidade. Talvez porque jovens mudem muito de idéia, talvez porque ele é doente – coitadinho! - e vive surtando, talvez porque ele nunca levou esse namoro tão a sério assim... ou talvez sem motivo algum, nunca vamos saber, o fato é que ele desistiu. Não queria mais. E fugiu antes. Dela. Sem ela. Pra longe dela.
Que casal não tem problemas? Imagina se a sua mãe separasse do seu pai na primeira briga? Casais brigam mesmo, mas se entendem. Quando está só comigo, ele é outra pessoa. Vocês não conhecem o Mocinho que eu conheço.
Algumas pessoas têm esse dom maravilhoso do romance. Não o romance substantivo, mas o verbo. Romancear, num sentido bem pejorativo e quase cruel, é isso. Transformar a crônica de uma tragédia anunciada num lindo conto de fadas que só existe dentro da sua cabeça. O amor incentiva isso. Quem diz que o amor é cego não se refere somente à beleza do parceiro. O amor não te deixa enxergar coisas muito mais sérias que o nariz, a pele ou os pneuzinhos da pessoa amada. O amor embaça as vistas a ponto de, de longe, um problema assumir exatamente as feições de uma solução.
Ou o ser humano é que gosta mesmo de se enganar...


Sobre isso:

Nenhum comentário:

Postar um comentário