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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Bum

Era só mais um dia comum, um almoço comum, a mesma comida de sempre, o restaurante de todos os dias, quase no mesmo horário, inclusive. Eu só estava com um pouco mais de pressa hoje, escolhi a primeira mesa vazia, respondi uma ou duas mensagens no whatsapp e passei a me concentrar em mastigar devagar os legumes, porque agora eu sou assim. Tudo corria normalmente, até que ela chegou.
Veio rapidinho, secando as mãos no avental, sentou-se na mesa ao lado da minha, respirou fundo e sorriu pra mim. Sorri de volta e ela começou:
- Nossa, a gente fica nessa correria, dá uma vontade de sentar, né?
Respondi com um sorriso simpático.
- Ainda mais nesse calor...
Outro sorriso simpático.
- Só de sentar, a gente já descansa um pouquinho, né?
Parecia quase impossível não engatar um diálogo com a senhora, de touca e avental, toda suada, que tinha saído de dentro da cozinha, mexido nas panelas sobre o fogão a lenha e se sentado exatamente ao meu lado. Completamente por acaso, já que era a hora do almoço e o restaurante estava cheio. Só mais um desses encontros do acaso, de fila de banco e ponto de ônibus, que eu sempre tento evitar e que ela deve ter todos os dias já que trabalha lá. Decidi parar de sorrir e soltar um ou outro monossílabo, antes que a atmosfera pesasse mais.
- É...
- Esse horário é apertadíssimo.
- Hum...
- A gente olha, a fila tá lá no caixa. A gente corre, põe mais comida, a fila acaba. A gente distrai e tá no caixa de novo...
Sem sorriso agora.
- Mas sabe que eu gosto?
- É?
- Gosto! Essa correria é boa. Distrai a gente.
- Hum...
- Não deixa a gente pensar na vida, sabe?
Sua voz já trazia uma notinha diferente.
- Principalmente porque eu tô passando por um momento muito difícil.
A comida parou de descer.
- Eu acabei de perder meu marido. - e, aqui, ela começou a chorar.
- Ah... - eu tentava formular alguma frase enquanto olhava pros lados procurando ajuda, dica ou um buraco onde enfiar minha cabeça.
- Tem vinte dias. - e o choro aumentando.
- É... Eu sinto muito.
- No dia do nosso aniversário de 34 anos de casados.
Já não era mais possível disfarçar o puro e simples pânico que tomava conta da minha cara. Tive a impressão de que ela ia me contar como tudo aconteceu. Ela chegou a dizer "Ele..." duas vezes, com a voz mais sofrida do mundo, mas tudo o que conseguiu fazer em ambas as tentativas foi deitar a cabeça na mesa e chorar muito.
Minha comida já tinha perdido completamente a importância e eu não conseguia pensar em mais nada que não fosse o que fazer naquele momento. Até que ele acabou. Ela se levantou chorando, passou a mão no rosto e voltou pra cozinha. Não disse tchau. No caminho, mexeu a panela de arroz, espalhou a farofa, que já estava acabando, secou mais o rosto e sumiu na fumaça. O pior de ter uma cara muito comum é que todo mundo conhece alguém parecido com você e se sente sempre muito confortável pra iniciar uma conversa e já abrir o coração. E eu ainda estou pensando no que deveria ter feito. E, mais ainda, no que devo fazer amanhã, quando for comer a mesma comida no mesmo horário.
Cada um de nós é como uma bolha. Ou, pelo menos, os nossos sentimentos são assim, e crescem até explodir. Aquela senhora explodiu hoje. Na minha frente.

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