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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Espelho, espelho não meu

Eu já disse várias vezes que não há nada pior que expectativas. Mas hoje, apenas para que isso fique real e definitivamente bem claro, eu gostaria de dizer que não existe nada pior que expectativas. Quando eu morrer, podem escrever poemas na minha lápide porque "descansar em paz" não é (nem será) uma opção. Há tanta coisa que eu quero fazer/viver/conhecer que a morte, antes dos 230 anos, com certeza me interromperá de alguma maneira.
Minha casa é o melhor exemplo disso. Eu já desenhei e decorei a casa em que quero viver (talvez fizesse mais sentido eu dizer "a casa em que quero morrer", pra destacar o fato de que ela será a minha "casa definitiva"). No entanto, até me mudar para essa casa, eu viverei em várias outras, que eu também já imaginei, decorei, redecorei e não gostei. Essa tal casa será a última de uma série de casas em que ainda vou viver. Eu vou comprar uma, trocar por outra, depois mais uma... até eleger uma cidade definitiva, um bairro definitivo, uma vida definitiva... e ter o dinheiro necessário pra definir tudo isso.
Nos meus planos mais inocentes, a segunda casa dessa lista já existiria a essa altura. A primeira é a dois meus pais, onde fui criado e vivo até hoje. A segunda, eu compraria assim que me formasse, antes dos 25 anos. Seria um apartamento bem pequeno. Na verdade, seria um desses apartamentos sem paredes, como o da Glória Kalil (porém menor) ou o da Natália em Adorável Psicose (porém menos colorido). Apartamentos sem paredes são uma nova tendência em decoração. Uma alternativa charmosa e prática para quem não possui muito espaço, não tem filhos ou só acabou de se formar, não tem nem 25 anos e precisa de um teto que caiba dentro do seu orçamento. Eu, no caso. Só que não.
No início desse mês, a minha formatura fez um ano. E eu estou falando da formatura oficial, que aconteceu dois meses depois da festiva... a festiva mesmo, da qual eu, de fato, participei, fez aniversário ainda no ano passado. Meus vinte e cinco anos virão em pouco mais de 4 meses. E, talvez por ter esse plano sempre tão bem definido na minha cabeça, não há outra coisa em que eu consiga pensar atualmente.
São dias e noites nos sites de todas as lojas (todas não, só as ace$$íveis) de decoração que eu conheço. Carrinhos e mais carrinhos feitos e desfeitos. Artigos sobre arquitetura, decoração, feng shui, cromoterapia... várias casas prontas na minha cabeça e nos meus sonhos. Nenhuma delas na realidade.
Até aí, esse seria um texto normal sobre frustrações normais de uma pessoa normal que não conseguiu realizar seus sonhos normais dentro do prazo que julgava suficiente. Mas há algo de anormal nisso tudo: os indícios. Minha mãe foi a uma cartomante recentemente e ouviu que sou um ótimo filho, mas vou pra longe em breve. Minha amiga viu no tarô que vou "abandonar" meu emprego ainda em 2014. Meu amigo sensitivo sonhou com a minha mudança e comigo pedindo visitas aos amigos de forma autoritária e indelicada (que é bem como eu sou mesmo). Várias "pistas" indicando um possível final feliz (temporário, sabemos, porque a minha casa definitiva ainda está a muitos concursos de distância) pra essa (tenebrosa!) vida de videoaulas de direito tributário e acrósticos de empresarial. Um dia, eu vou mesmo passar em alguma coisa (pensamento positivo). Só não dá pra saber quando.
E foi exatamente por não saber quando que meu inconsciente me aplicou essa peça. Inconsciente, consciente, anjo da guarda, pensamento positivo ou seja lá quem for que andou me garantindo que a "segunda casa" sairá em breve. Só sei que meti de vez o pé nessa jaca passei a encarar isso como certo. Na semana passada, por exemplo, eu comprei toalhas - gente, quem mora com os pais e compra toalhas? Hoje, me peguei vendo mesinhas de centro e tapetes. Comprei uma TV no mês passado, olhei não sei quantas esteiras... Se você puxar o histórico de pesquisas do meu computador, dá pra montar uma feira de móveis.
Vejam como é destruidor o efeito das expectativas na vida de uma pessoa fraca e sem noção. Vejam que pessoa doente eu me tornei. Agora, imaginem o que vai ser de mim se essa segunda casa demorar um ano, dois anos, dez anos... E se ela nunca chegar? Se eu morrer nesse emprego, com esse salário, juntando dinheiro pra uma nova vida e ela nunca chegar... esqueçam os poemas, eu quero um palavrão na minha lápide.
Talvez a melhor metáfora pra vida que eu decidi levar (desde que transformei meu futuro num jogo de tabuleiro) seja o espelho do meu quarto. Eu escolhi um espelho grande, pra cobrir toda uma parede, e, claro, bem acima do que eu estava disposto a pagar. Aí, decidi não comprar, porque não vou viver tanto tempo mais naquele quarto. Melhor gastar meu dinheiro com coisas móveis, que eu vou poder levar na mudança.
Não comprei espelho. Não mudei. Não compro coisas "intransportáveis". Não mudo.
E sigo assim, planejando, sonhando, comprando e sem espelho. Deve ser meu inconsciente, envergonhado e arrependido, que não quer me deixar olhar pra minha cara.

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