Páginas

segunda-feira, 24 de março de 2014

Brown eyes

"Acabei saindo por lutar por uma coisa que acredito, por tentar defender o direito de uma mulher...".
Foi não, Cássio! Você saiu porque é babaca mesmo. Essa foi só mais uma das suas inúmeras babaquices. Resumir a sua eliminação a essa briga pressupõe que você esteve perto de ganhar o programa e perdeu por isso - e essa não é a verdade. Você nunca foi favorito, você não ia ganhar. Eu não sei nem como você durou tanto tempo. Você não é só babaca e infantil, você é inconveniente e racista. E gente assim não pode ir longe em nada. Lide com isso.
Semanas antes de você, o Júnior saiu do programa dizendo que perdeu quando deixou a Ângela para ficar com a Letícia, já que o público não viu com bons olhos trocar uma amiga pela outra. Segundo ele, venceria o programa se tivesse mantido o primeiro romance. Sobre o público, ele tinha razão. Sobre vencer o programa, não. Além da história toda com as duas amigas, ele era arrogante demais pra ser querido. Tanto que não sobreviveu ao primeiro paredão.
Na mesma linha, saiu o Diego, há poucos dias, dizendo que "é preciso ser sonso pra ir adiante no jogo". Ele era machista, grosseiro e babaca, mas seu erro foi "não ser sonso", perceba, porque o resto todo deviam ser qualidades, eu suponho. 
De certa forma, eu entendo os três. É muito difícil, para qualquer pessoa, reconhecer e aceitar seus defeitos. Anunciá-los, então, é quase impossível. Há sempre a esperança de ninguém ter reparado, não é? Mas as pessoas reparam...
Por mais fácil que seja culpar alguém ou algo, isso não nos isenta da nossa responsabilidade. Muito menos engana os outros. Ainda seguindo os exemplos televisivos de gosto duvidoso, o episódio "Born this Way" da segunda temporada de Glee desafiou cada personagem a estampar uma camisa com o nome do seu maior defeito - ou aquilo que mais o incomodava e se fazia sentir diferente. A professorinha que sofre de TOC escolheu "Ginger"; a asiática que pinta o cabelo de azul, veste-se como vampira e claramente sofre com o efeito sanfona escolheu "brown eyes"; a mais chata, prepotente e excluída vestiu "Nose".
É claro que escolher o seu maior defeito é uma atividade extremamente pessoal, impossível de julgar. Mas não é interessante ver como são diferentes os olhares que nós temos e o que as pessoas têm sobre nós? Muitas vezes, temos grande dificuldade em aceitar coisas que parecem simples para os outros, e aceitamos com naturalidade coisas que soam quase como imperdoáveis para os demais.
No meu discurso de orador da turma, à época da formatura, tentei enumerar qualidades e defeitos que simbolizassem bem cada colega, com o máximo possível de humor, para que todos se sentissem lembrados e a leitura não se tornasse cansativa. Em nenhum dos casos, nem mesmo em relação aos colegas de quem eu não gostava, a minha intenção foi ofender. Nem de brincadeira, eu desejaria fazer mal a alguém em uma noite tão especial e, ainda assim, houve quem se ofendesse. Pessoas que se sentiram "resumidas demais", "futilizadas" pela pouca profundidade das frases. Dentre estes, um amigo muito próximo.
A grande maioria gostou do discurso. Recebi inúmeros comentários e agradecimentos entusiasmados, que me deram a gratificante sensação de ter atingido meu objetivo. Mas confesso que, ainda que pequenas, essas reações negativas me assustaram muito. Principalmente a do meu amigo, que disse que nos conhecíamos há tempo suficiente para merecer mais "consideração" (ou algo nesse sentido). A minha intenção, obviamente, nunca foi, em uma frase, captar e resumir a essência ou que cada um tem de mais especial e bonito dentro de si. Muitos deles, eu sequer conhecia a tal ponto. A superficialidade foi proposital. Era a formatura de uma turma grande, que conviveu pouco - ainda que por muito tempo -, não era o funeral de um familiar. E isso me chateou muito. Durante muito tempo, eu senti que tinha usado um momento tão especial de forma errada e quase irresponsável.
Só passou recentemente, muito tempo depois daquela noite, quando uma amiga me explicou que eu nunca vou poder discutir com a visão que cada um tem de si. E é verdade. Ameaçar essa "autoimpressão" é perigoso e ofensivo demais. Expor outro ponto de vista... É como quando ouvimos a nossa voz gravada pela primeira vez. Esse não sou eu! Não posso ser!
Passamos a vida construindo a imagem que queremos que os outros tenham de nós. E, por trás desse palco, nas coxias, formamos a que nós temos. Em território secreto, seguro e sagrado, desenhamos o que acreditamos ser. E essa estátua de cera precisa de silêncio pra viver. Não gosta de opiniões, de falatório, de arruaça. Fazer barulho perto delas foi meu erro. Isso não é só algo muito importante que cada um de nós guarda para si. Em muitos casos, é a única coisa que as pessoas têm. E tesouros precisam de mistério mesmo.
O segredo para evitar esses "choques", talvez seja abrir esses cadeados às vezes. O último pirata que enterrou um baú de dinheiro deixou nada mais que papel velho pra eternidade, porque as moedas mudam. Até os tesouros secretos precisam ser atualizados e isso só é possível com o contato com o mundo externo. O tempo continua passando, implacável, do lado de fora desse baú.


Nenhum comentário:

Postar um comentário