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quinta-feira, 27 de março de 2014

Setenta por cento e mais um

- Eu passei o dia lendo sobre os encoxadores nos jornais de São Paulo. Ainda não consigo acreditar nisso.
- Aqui no Rio, acontece todo dia. O povo é que não denuncia.
- É. Eu vi. Em várias matérias, há referência a casos do Rio. A coisa tá feia aí também, né? Onde que vai parar esse mundo?
- Ah, mas é complicado, porque as mulheres provocam também.
- Oi?
- É. As mulheres provocam. Usam roupas sensuais demais...
Ele é carioca, economista, deve ter quase 30 anos. Viveu e estudou algum tempo na Europa e está de volta ao Brasil, na cidade maravilhosa. Odeia calor, não pega sol e acha que as mulheres da sua cidade exageram na sensualidade dos trajes. Já foi alisado algumas vezes no metrô, inclusive por homens. Devia estar vestido de forma muito sensual, com certeza...

- O problema é que a maioria das pessoas não denuncia. Tem vários casos aqui, mas pouca gente quer se identificar. E quem se identifica ainda sofre um tanto de piadinha do povo nos comentários.
- O povo tá contra ainda por cima?
- Tá. Tem uma entrevista aqui com uma das vítimas e tão mexendo porque ela é mais velha.
- Como assim? Quantos anos?
- Ela é babá, tem 54 anos e um cara apertou os peitos dela. Não foi nem um esbarrão discreto, ele pegou nos pei...
- Ah! Mas ela não devia nem tá reclamando. Nessa idade, devia comemorar. Duvido que mais alguém queira fazer mais alguma coisa com ela.
Ela é mestre em Direito, professora universitária, mãe de duas filhas adolescentes. Não usa transporte público, mas acha que a babá deveria festejar o abuso sofrido, já que não é todo dia que um estranho deseja uma mulher "dessa idade". Pelos meus cálculos, ela já tem mais de 40. Tá quase chegando, então, o momento em que todo mundo vai poder passar a mão nela e ela vai festejar.

- Mas eu acho que o mundo tá acabando mesmo. Hoje, eu vi duas matérias nesse sentido: uma dizendo que 58,5% das pessoas concordam que haveria menos estupros se mulheres "soubessem se comportar" e outra em que 65% acha que mulher que mostra corpo merece ser atacada mesmo.
- Mas é verdade.
- É verdade o quê?
- O que essas pesquisas estão mostrando. 70%? Então pode acrescentar mais um aí, porque eu também acho.
- Saia curta não estupra ninguém não, gente! Quem estupra é estuprador!
- É? E você já viu alguma freira ser estuprada?
- Não, mas eu já vi crianças, mulheres idosas e pessoas deficientes e nenhuma delas tava de vestido curto. Estuprador não tem isso não.
- Mas as mulheres exageram mesmo. Usam umas saias tão curtas, que sobem e elas têm que ficar puxando pra baixo. Acabam atraindo esse tipo de comportamento, não tem jeito.
Ele tem quarenta e alguns anos e é promotor de justiça há vinte ou quase isso. Já trabalhou na área criminal e acha que, se você é mulher e não se veste como uma freira, tem uma parcela de responsabilidade se for vítima de estupro. Deveria usar uma placa pendurada no pescoço: "se a saia subir, é de quem quiser!".

Apaguei não sei quantos princípios de reflexões que preparei pra esse último parágrafo. Há uma série de coisas que eu preciso dizer e nenhuma delas ficou boa no papel. Todos esses diálogos são reais e aconteceram durante essa última semana. A minha intenção era, agora, com calma, discutir um por um dos absurdos. Explicar, como se cada um deles fosse ler, o quão equivocados são esses pontos de vista. Mas descobri que não consigo. Vou ficar aqui deitadinho no chão, em posição fetal, com a mão fechada em punho dentro da boca, porque é assim que eu quero esperar pelo final dos tempos.
Mesmo porque não vai demorar...

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