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domingo, 25 de maio de 2014

Greve

Acabei de ver Guerra de Casamentos (Wedding Wars), um filme de 2006 sobre o casamento gay. Não pesquisei muito, mas me parece ter sido um filme feito pra TV, com pouquíssima repercussão. Resumidamente, a história é de um cara (Ben) que está prestes a se casar com a filha do governador, em campanha para reeleição, e, a pedido da noiva, contrata seu irmão gay (Shel) para organizar a celebração. Ben e Shel não se dão bem desde a revelação e esse reencontro começa já bastante difícil. Na campanha eleitoral, o candidato à reeleição declara-se contrário ao casamento gay, com o apoio do futuro genro. Shel e Maggie, a noiva, revoltam-se com a notícia e ele inicia uma greve, suspendendo todos os preparativos para o casamento e bagunçando bastante a vida do noivo.
No filme, a greve do Shel toma proporções catastróficas e alcança todo o país. De norte a sul dos EUA, os gays e simpatizantes da causa entram em greve e quase todos os estabelecimentos são fechados. Jornalistas abandonam programas de TV ao vivo, restaurantes cancelam reservas... e o caos impera de forma muito divertida.
É claro que não dá pra imaginar uma greve gay nacional. Nem regional, eu diria, principalmente no Brasil, em que quase ninguém é gay (ou é, mas ninguém sabe, nem pode saber). Mas essa seria uma resposta muito boa e eficaz de quem está cansado de ser visto como "cidadão de segunda categoria", nas palavras do próprio Shel. Talvez o filme não tenha tido grande repercussão exatamente por não acrescentar muito à discussão, mas ele tem um mérito que eu preciso defender.
A paixão com que Shel expõe a sua causa, mesmo com todos os obstáculos que a cobertura midiática vai impor (e eu não vou contar pra não perder a graça), é realmente envolvente. Dá vontade de tomar o microfone e falar, dá vontade de reescrever os cartazes do piquete, dá vontade de rasgar um por um dos forros de mesa da festa do casamento... dá vontade de participar, de fazer alguma coisa. O filme é de 2006 e as discussões (e até as piadas) permanecem atuais, porque os argumentos conservadores ainda são os mesmos.
Ri um pouquinho, quase me emocionei (porque tem romance e tem final feliz, é claro) e, principalmente, me senti convidado a refletir. Em um dos discursos (e, esse spoiler, eu não tenho como evitar), Shel diz que as pessoas que são contra o casamento gay não conhecem os gays, porque, se conhecessem, saberiam que eles não querem destruir nada, eles só querem renovar. Acrescento a isso o que eu sempre digo a quem tem medo de sair do armário: só quem pode fazer os gays serem aceitos são os próprios gays.
Grande parte das pessoas que ainda prega o preconceito não conhece ou finge não conhecer os homossexuais. Quando você tem (e sabe que tem) um por perto, o discurso tende a mudar. Cada gay tem o poder de mudar a sua família e o seu grupo de amigos, que, vendo que ele não é o bicho de sete cabeças que o discurso preconceituoso prega, tem a oportunidade de refletir e montar o seu próprio conceito acerca da homossexualidade. Quando o gay sai da TV e vira seu gerente no banco, seu colega de trabalho ou seu primo querido, você é convidado a pensar sobre o que, talvez, só tenha ouvido falar até então. E você não que seu colega tenha menos direitos, que seu primo viva marginalizado, nem que matem o seu gerente do banco em uma rua escura qualquer (talvez você até queira que o matem, mas não por quem dorme ou deixa de dormir com ele).
Enquanto greves nacionais não são possíveis e os representantes dos estados e do país não se envolvem verdadeiramente nesse movimento, a estratégia dessa guerra tem que ser as pequenas batalhas. Dia após dia, desaforo após desaforo, a aceitação tem que acontecer nos pequenos grupos primeiro. E, de grupo em grupo, mais cedo ou mais tarde, serão famílias, bairros, cidades e países tolerantes. Cada amigo que vê, em você, uma pessoa como todas as outras, será um adulto melhor e, possivelmente, um pai menos ignorante.
Faça isso por você e pelos que ainda virão. 
Seja gay na sua vida!


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