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sábado, 24 de maio de 2014

Não

Houve um tempo em que eu falava tudo o que queria por aqui. Falava não, escrevia. E era ótimo porque eu sentia que tinha falado e ninguém lia, então eu permanecia em silêncio. Agora, as pessoas leem. E deve ser por isso, então, que eu já não falo mais.
Não é só isso, é claro. Mas, de um tempo pra cá, e eu não consigo entender por que, criei um sentimento de culpa tão grande. Antes, eu escrevia (ou falava) e não me preocupava tanto com as consequências. Agora, eu me preocupo. Sinto algo muito parecido com uma obrigação de ser um adulto equilibrado, educado e exemplar. E esse tipo de gente não fala (nem faz) tudo o que vem a cabeça. Eles respiram fundo, pensam nos outros, pensam na cena, no que pode acontecer em seguida, sorriem e continuam suas vidas calmas e bonitas.
Uma colega do trabalho me disse, num almoço dessa semana, que sua terapeuta demorou anos pra abrir a boca e, só recentemente, disse que cada "sim" que ela diz pra alguém é um "não" que ela diz pra si mesma. E que, depois disso, ela tem dito muito mais "nãos" - e também que isso não resolveu a vida dela, mas tem economizado muitas chateações. Desde então, é só no que tenho conseguido pensar. Os "nãos" que eu não digo. E as chateações que meus "sins" têm gerado pra mim.
Não tem nada pior que sentir culpa. Principalmente quando você só está fazendo o que você quer, e a culpa é por ter frustrado os planos ou expectativas de outra pessoa. E as pessoas têm planos e expectativas que incluem você, por mais egoísta que isso pareça, e te culpam se você não segue o script imaginado. Culpam mesmo. Expressa ou implicitamente, por uma frase, uma cara ou um emoticon, elas deixam claro o quanto você é egoísta por não fazer exatamente o que elas gostariam que você fizesse.
É assim que eu me sinto: adiando um não imenso e doloroso que vai me economizar vários sins. Ou vários nãos pequeninos que vão acabar num não grandão, só que já não tão grande assim.
O primeiro passo pra alguma grande mudança na minha vida, eu já fiz. Escrevi. Agora, é só ler e por em prática.

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