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quinta-feira, 12 de junho de 2014

Hoje, eu saí sem você

Hoje, eu saí sem você. Já era hora e já era de se esperar. Se você me perguntar como foi, eu vou responder "diferente". Não sei se foi melhor ou pior, só sei que não foi como antes. Na verdade, eu sei quase nada desde aquela noite. Preciso passar uns dias deitado, ouvindo músicas depressivas e refletindo, pra montar frases e repetir sempre que alguém perguntar como eu estou me sentindo. Porque estão todos me perguntando e, a cada um, eu digo algo mais sem sentido. As palavras soltas que me vêm à cabeça na hora.
Eu sei que foi melhor assim - eu até expliquei isso, não foi? Sei que era inevitável e que o melhor era enfrentar logo esse problema. Adiar e fingir desconhecer foi um jeito muito covarde de viver esses últimos doze meses. E eu sei como devo agir, o que devo pensar... sei até que não tenho culpa. Se a prova fosse teórica, minha nota seria a máxima. O que tá me matando é essa prática interminável.
Mas vim aqui pra te contar do passeio. Hoje, eu saí sem você e foi ótimo. Em momento algum, eu me preocupei com meu telefone. Não que ele tivesse tocando ou sem bateria, eu só me senti livre pra olhar pra tela dele todas as vezes em que tive vontade, sem que a sombra da psicose baixasse a luz do ambiente, sem que eu me sentisse culpado por ter vontade de conversar com outras pessoas. Talvez, eu volte a ser um desses deselegantes que a internet afastou do convívio presencial. E, se isso acontecer, serei um deselegante livre, um deselegante sem peso nenhum na consciência.
Falei mal das tatuagens da garçonete e do cheiro do cigarro de palha e ninguém me censurou. As tatuagens, antes de serem uma manifestação artística, eram feias mesmo,e muito mal feitas, e você não tava lá pra defender. Você não tava lá nem pra apertar o nariz e dizer que adora o cheirinho de cigarro de palha. Eu quis mudar de mesa, com medo daquilo empestear meu cabelo. Hoje, eu saí sem você e só voltei pra casa quando me deu vontade. Ninguém fechou a cara, ninguém torceu o nariz, ninguém levantou e foi embora a pé. Hoje, eu saí sem você e parece que só precisava me preocupar com a minha alegria, a minha satisfação. Parecia que eu tinha voltado a ser uma pessoa só, e que só as minhas vontades eram importantes para mim nessa noite.
Mas eu confesso que me lembrei de você. A cada conferida no celular, a cada volta completa do relógio e todas as vezes que a garçonete tatuada e fumante passou perto de mim - e ela não parava quieta! -, eu pensava no que você diria se estivesse lá. Na verdade, eu imaginava a cara que você faria, já que você nunca foi de muitas palavras.
Quando o cardápio chegou, havia uma seção vegetariana e algo chamado "abobrinha colorida" ou qualquer coisa parecida. E eu, imediatamente, ouvi sua voz dizendo o que você certamente teria dito: "eu quero uma abobrinha colorida, porque é abobrinha e é colorida". Mas eu ignorei as cores e pedi carne. Na hora da sobremesa, vi seus olhos sobre o chocolate que escorria e sujava a mesa. Vi mesmo, fiquei até assustado. A taça era linda, os doces eram geometricamente perfeitos e o chocolate parecia tinta numa tela. Era o cenário perfeito pra você aparecer. E, por trás dos seus olhos, sua voz resmungava, elogiava e me culpava por ter te levado a um lugar tão gordo.
Pensei no que você teria dito sobre a decoração, que eu gostei, mas achei mediana. Escolhi as cadeiras horrorosas das quais você iria gostar - e as que eu ia amar e você não. Eu confesso que até ri das piadas que você teria feito sobre seu primo quando visse as maravilhas criativas que o chef preparava. Repassei, mentalmente, o meu sonho de montar um Café e todos os seus comentários positivos e negativos sobre o meu projeto. E, a cada instante, meu inconsciente repetia que eu preciso voltar lá com você. Você precisa conhecer aquele lugar!
Hoje, eu saí sem você. E só descobri que você ainda não saiu de mim.

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