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domingo, 28 de setembro de 2014

A pessoa é para o que nasce

Poucas frases marcaram tanto a minha infância quanto "a pessoa é para o que nasce". Se a memória não me traiu, eu só ouvi isso uma vez. Era o nome de uma peça de teatro (ou, talvez, um documentário) anunciada na rádio e foi a sonoridade entranha que martelou pra sempre, até grudar de vez na minha cabeça. A sonoridade e o estranhamento porque, à época, me lembro de não ter entendido, de achar que faltava alguma palavra pra ter sentido...
Embora eu nunca mais tenha ouvido, não me canso de repetir. A pessoa é para o que nasce, gente. E foi isso o que eu disse, agora há pouco, a um amigo enquanto discutíamos sobre pequenos rachas dentro das panelinhas. Hoje, com tantas redes sociais e tanta interação entre as pessoas, parece que ficou mais fácil brigar, mais fácil se desentender. A maior parte da comunicação se dá por escrito, e a escrita é a mãe do mal entendido. Nós passamos o dia inteiro escrevendo um para o outro, individualmente ou em grupos, em que o entendimento completo varia muito de acordo com os comentários dos outros.
A pessoa é para o que nasce, eu dizia, e entender isso facilita imensamente a convivência. Pense no seu grupo de amigos. Provavelmente, há alguém com quem você se sente mais a vontade pra desabafar. Esse alguém te ouve com atenção, dá bons conselhos e sabe a diferença entre o que você quer e o que você precisa ouvir. Esse é um bom amigo para desabafar.
Além dele, há, com certeza, um amigo bastante animado. Ele é a alegria de todas as festas e é impossível não notar quando ele chega ou sai. Ele agita o lugar, traz o barulho, a energia. Perto dele, tudo fica mais alegre e divertido. É o seu amigo pra sair. Um dos amigos (ou alguns deles) tem gostos muito parecidos com o seu. Vocês assistiram aos mesmos filmes, frequentam os mesmos lugares e ouvem as mesmas músicas. Vocês poderiam passar dias conversando sobre as coisas de que gostam - e, provavelmente, vocês falam sobre isso sempre que se encontram. É o seu melhor amigo pra conversar.
Temos amigos pra beber, amigos pra sair pra dançar, amigos que falam pouco e baixo e são ideais pra ver filme e dormir mais cedo... E, se você souber separar quem nasceu pra quê, estará sempre muito bem acompanhado. Não dá pra exigir, de todo mundo que nos cerca, bons conselhos e atenção. Menos ainda, animação e alegria. Nem todo amigo acorda cedo pra te ajudar na mudança, mas o que acorda não necessariamente quer ouvir seu choro ou segurar a sua testa no vaso sanitário.
A pessoa é para o que nasce, gente. Simples assim. Vamos parar de discutir política com amigo de dançar até o chão...
O que nos cabe é aprender a valorizar o que cada amigo tem e parar de cobrar e esperar pelo que ele não pode oferecer. Quem ainda não aprendeu segue caçando um pacote completo que não existe, numa busca solitária e cheia de desentendimentos. Nenhum amigo é perfeito, mas todo mundo é bom em alguma coisa.

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