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sábado, 4 de outubro de 2014

Não teve graça, Levy!

Li o texto de um amigo querido publicado hoje no Brasil Post e um nó tomou conta da minha garganta. Pedro tem toda razão quando critica o riso, que divide com o silêncio as principais reações das pessoas diante da discriminação imposta histórica e diariamente à população LGBT. O riso fortalece o discurso, banaliza o efeito das palavras e ameniza o caráter criminoso - porque a fala do candidato Levy Fidelix não foi nada diferente de "criminoso", seja a homofobia criminalizada ou não. Incitar o ódio das pessoas e convocar a "maioria" a "enfrentar" e "vencer" uma "minoria" não pode ter outro nome que não crime, independente do que a lei diga a esse respeito.
E foi o que aconteceu no último dia 28/09/2014, no debate entre os os candidatos à Presidência da República transmitido a todo o país pela Rede Record de televisão. O candidato Levy Fidelix, do PRTB (que, pasmem!, significa "Partido RENOVADOR Trabalhista Brasileiro), ao responder a uma pergunta da candidata Luciana Genro (PSOL), destilou todo o seu preconceito por meio de um discurso de ódio e incitação à violência (que levou a plateia às gargalhadas). Ele comparou a homossexualidade ao crime de pedofilia, disse que prefere perder votos a fingir "concordar" com isso e que os homossexuais precisam de tratamento psicológico, mas que esse tratamento deve acontecer bem longe dos heterossexuais. Por fim, após uma série de absurdos que parecia não ter fim, encerrou o seu discurso com a seguinte frase: "Vamos ter coragem, nós somos maioria. Vamos enfrentar essa minoria!" com nenhuma outra intenção que não a de inflar os homofóbicos a embarcarem nessa verdadeira caça às bruxas que os homossexuais enfrentam hoje em dia.
Não há, ainda, uma lei que criminalize a homofobia - e o resultado disso é a existência de grupos de extermínio em franca atuação, além da morte quase diária de homossexuais em crimes clara e unicamente motivados pela homofobia. No entanto, a nossa legislação tipifica o discurso de ódio e a incitação à violência, motivos pelos quais esse senhor precisa ser urgentemente responsabilizado.
Imediatamente, os internautas (e eu nem estou reduzindo aos homossexuais ou militantes) iniciaram movimentos e petições pedindo a punição do candidato pelos crimes cometidos em rede nacional. Eu mesmo divulguei o link para registrar denúncias no MPF e disponibilizei um texto padrão, pra facilitar pra quem quisesse denunciar.
Sei que o melhor pra nós, eleitores, é que os candidatos joguem limpo desde o começo. Uma das minhas maiores críticas à Dilma é exatamente essa. Em 2010, ela se apresentou favorável á luta dos gays em sua campanha e nada fez por eles durante esses 4 anos (vide "kit gay", Marco Feliciano e etc.). No entanto, é completamente possível se opor aos gays sem declarar guerra contra eles. O detestável e desprezível Pastor Everaldo, por exemplo, diz, em todas as oportunidades, que família é homem e mulher. Preconceituoso? Sim. Homofóbico? Não. Marina Silva diz que o casamento remete ao matrimônio e é entre homem e mulher, mas famílias homoafetivas merecem reconhecimento e, para elas, deve haver "união civil" - seja lá o que isso for. Preconceituosa? Sim. Homofóbica? Não. Ainda que essas opiniões não sejam as mais adequadas na minha opinião, não posso dizer que não sejam legítimas. Cada um de nós pode pensar o que quiser e, desde que não faça ou proponha que se faça mal aos outros, pode expressar esse pensamento. É isso que a gente chama de "liberdade de expressão".
O discurso do senhor Levy Fidelix, no entanto, ultrapassou todas as barreiras do preconceito e da liberdade de expressão. Ele falou em pedofilia, falou em "fim da população", mandou visitar a Paulista a noite e praticamente convocou uma guerra da maioria contra a minoria. Um pronunciamento desses tem o poder de atrair e atiçar uma parte da população que acha normal bater em gay. Isso não é expressar uma opinião, isso é incitar o ódio e fortalecer a homofobia. Ele poderia dizer que não aceita, que não concorda, que Deus não gosta e que os homossexuais vão arder no mármore do inferno, mas, de forma alguma, ele poderia propor tratamento psicológico, distanciamento e enfrentamento ou combate.
Os homossexuais são, hoje, a bola da vez do preconceito, mas não foi sempre assim. Em outros momentos da história, e com esse mesmo discurso, outras "categorias" sofreram na pele esse enfrentamento. Os negros eram almas impuras e pecadoras, não tinham os mesmos direitos, eram minoria e foram escravizados. Os índios andavam nus, não conheciam a existência de Deus, precisavam ser catequizados, foram dominados e quase extintos. As mulheres teriam sido feitas da costela dos homens e a eles deveriam pertencer e obedecer, não precisavam estudar nem trabalhar, só reproduzir, cuidar dos filhos, da casa e dos maridos, e foram subjugadas e oprimidas durante séculos. Os judeus eram exatamente o que esse grande equivocado da atualidade definiu como uma minoria que afrontava os direitos da maioria e precisava ser enfrentada e todo mundo sabe o que aconteceu com eles.
Os números atuais indicam que 40% dos crimes homofóbicos do mundo acontecem no Brasil. Ninguém sabe como é feita essa apuração, mas esse número é alarmante. A cada 28 horas, um homossexual é morto no nosso país por um crime homofóbico. Latrocínio não é homofobia, doença não é homofobia, acidente de carro não é homofobia... O que esse índice quer dizer é que, a cada 28 horas, uma pessoa é assassinada única e exclusivamente por não se encaixar no padrão heteronormativo imposto por uma sociedade opressora, omissa e homofóbica. Quase um por dia. E, dia após dia, somos condenados a ter medo de tudo e de todos. A sair de casa como pessoas normais, trabalhar como pessoas normais, cuidar das nossas vidas normais e, a qualquer momento, ter nossos braços, pernas e pescoços quebrados por quem se considera detentor único da normalidade. Quem é a aberração aqui?
Quantos homossexuais você conhece? Faça as contas e veja. De 28 em 28 horas, mais cedo ou mais tarde, a violência vai chegar até você.
Mais cedo ou mais tarde, pode ser a sua ou a minha vez e, então, vai ser tarde demais para deixarmos de achar graça na homofobia. Lulu Santos tinha toda razão: nós somos muitos e não somos fracos, mas somos (quase) sozinhos nessa multidão...

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