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quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Com licença, um beijo

Eu tinha uma amiga muito difícil de conviver. Muito, muito mesmo. Fazer amizade com ela era um desafio incalculável... manter parecia impossível. Ela era muito fechada, arrogante e agressiva. Um olhar torto era suficiente pra ela começar uma guerra. Transpor essa barreira foi uma tarefa difícil e demorada. Trabalhávamos juntos e percebi logo que gentileza não era o melhor caminho. Parti, então, pra intimidade. Fingir intimidade, principalmente com alguém que resolve as desavenças batendo nas outras com os saltos das botas, foi um plano muito arriscado mas funcionou. Eu fazia brincadeiras leves, puxava papo, comentava coisas que não estavam em discussão e, um dia, éramos amigos.
Ela era uma pessoa fantástica. De verdade. Por trás de toda aquela grosseria, escondia-se, é claro, uma pessoa frágil e sofrida, carente de atenção e cuidado. Tínhamos opiniões parecidas, ela tinha um senso de humor cruel e nossas conversas duravam horas. Fomos muito felizes tomando cerveja, comendo mandioca e organizando pequenos encontrinhos da turma... Mas ela era difícil, eu disse. Todos os dias, tornava-se inimiga de alguém.
Entrei no banheiro e fulana não me cumprimentou. Nunca mais vou falar com ela.
Você reparou que a sicrana tá virando a cara pra mim? Vou deletar ela agora do Orkut.
Estou fazendo limpa no Facebook. Não quero gente falsa e invejosa perto de mim.
Todo dia, era a mesma coisa. Ela deve ter sofrido muito na vida, pois se sentia rejeitada a todo instante. Um olhar, uma fala, um pisar mais pesado... tudo a agredia e afrontava. E eu vivia tenso ao seu redor. Vivia pensando no que aconteceria se, um dia, ela achasse que eu tinha virado a cara pra ela. Cumprimentava-a com exagerado entusiasmo, pra não ter chance de ela não perceber, e me arrependia em seguida, com medo de ela achar falso ou irônico. A exata ideia do que as nossas mães querem dizer quando usam a expressão "pisar em ovos". Eu pisava em ovos com ela. Temia, com toda força, o dia em que ela me deletaria da sua vida como fez, lentamente, com todos os outros amigos do nosso grupo. Um a um, até só restarmos nós dois.
E eu segui assim. Pensando cinco vezes antes de agir, falando pouco e baixo, calculando cada ação e cada reação, sem dar um motivo sequer, por menor que fosse, pra que ela se sentisse magoada ou abandonada... até que, um dia, ela parou de falar comigo também.
Foi triste e muito frustrante, mas não foi surpreendente. Parecia mesmo inevitável. O que não parecia é que seria tão libertador...

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