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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Corre

Fui a uma missa de sétimo dia hoje e, entre ficar em pé, ajoelhar, ficar em pé novamente e voltar a ajoelhar, ouvi o padre dizer com profunda tristeza na voz:
Há certas experiências na vida que nenhum de nós deseja viver. No entanto, alguns vivem. E, a estes, só o que resta é retirar algum aprendizado disso.
Não cheguei a conhecer o falecido. Só o que sei é que ele tinha 24 anos, era o mais novo de três irmãos, levou onze tiros num crime que ninguém sabe explicar e deixou uma família devastada em meio a choque e sofrimento.
Ninguém gosta de perder. Diante de cenas como a que presenciei hoje, me vem sempre à memória o choro desesperado da minha avó no enterro da minha tia em 2004. Enquanto chorava vendo o caixão descer, ela segurava umas flores e repetia "não criei filho pra jogar terra em cima". Ninguém cria. A mãe que vi chorar hoje abraçou em silêncio um por um dos que lá estiveram. Seu rosto encharcado só passava tristeza, nenhuma outra informação. Parecia que a ficha da perda ainda não tinha caído.
Nessas horas, diante da clara e irrefutável efemeridade do tempo, que a vida esfrega nas nossas caras em todas as oportunidades que cria, não há como não discutir os rumos que damos às nossas próprias caminhadas. Estou fazendo o que eu quero? Estou aproveitando esse tempo, que pode ser tão curto, da melhor forma possível? E a resposta nunca é positiva.
Hoje, eu saí da igreja e fui a um restaurante japonês. Sozinho, triste e bastante ocupado com o balanço das minhas escolhas. Prometi economizar dinheiro esse mês. Prometi emagrecer pro carnaval. Prometi voltar cedo e escrever uma petição inicial. E quebrei todas essas promessas porque me deu vontade de comer sushi. Não vou falir, não vou estourar e estou, agora, escrevendo o que tinha que ter escrito mais cedo. A paradinha no restaurante a caminho de casa não me causou nenhum prejuízo muito grande. E me fez bastante feliz. Era o que eu queria naquele momento.
Imagino que a ideia de carpe diem não envolva comida para todo mundo, mas espero que ela esteja presente nos dias de todos. Que seja sushi, que seja sucesso, que seja uma paquera com um estranho. Eu desejo que todos nós saibamos tirar algum aprendizado das situações que vivemos sem desejar. Mas desejo, sobretudo, que aprendamos também com o que queremos vivenciar. E que façamos isso. Todos os dias.
A morte sempre deixa esse cheiro esquisito no ar. E, em mim, tem esse efeito de retrospectiva e apreensão. Sempre que a vida silencia algum instrumento dessa orquestra, eu inverto as prioridades da minha lista de curto, médio e longo prazo. Do jantar de hoje à carreira dos sonhos, há muita coisa que eu quero e preciso fazer enquanto o tempo insiste em me provar que não está por minha conta.
O tempo não está por conta de ninguém...


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