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quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Um Pabllo Vittar incomoda muita gente

Eu já perdi as contas de quantas vezes precisei explicar ou defender o meu “jeito de ser” pra alguém. Na infância, eu não passei um dia inteiro sequer sem que alguém me “sugerisse” engrossar a voz. A adolescência chegou e trouxe uma esperança imensa (provavelmente não só minha) de que a voz engrossasse com os hormônios e... não aconteceu!
Até hoje, a caminho dos 30, eu ainda escuto que eu “posso” ser gay (muito obrigado!), mas eu não “preciso” deixar meus amigos me chamarem de “miga” porque isso “não pega bem”... principalmente para alguém na minha “posição”. Aparentemente, eu não posso ser uma miga advogada, uma miga professora, uma miga servidora pública. Eu já sou gay, né?! Falar no feminino, ainda que numa brincadeira entre amigos, aí não... aí já é demais...
Aos 20, quando falei abertamente sobre isso para os meus pais pela primeira vez, meu pai me sugeriu abandonar a faculdade. Um diploma de Direito não teria o menor valor para “alguém assim”, ele disse, porque eu não poderia ser “uma advogada” ou “uma juíza”. Segundo ele, com um curso profissionalizante e algum investimento, eu poderia um dia ter meu próprio salão de beleza! (como se ser cabeleireiro fosse uma questão de orientação sexual e não de talento)
Ser gay é, todos os dias, ter que escolher entre se enquadrar ou se explicar. E é exaustivo enfrentar isso o tempo todo. É exaustivo pra quem é adulto, paga suas contas e escolhe, conscientemente, arcar com (todas) as consequências do livre exercício da sua liberdade. É exaustivo pra quem já percebeu o tempo e a alegria que deixou de viver tentando ser quem não é – e não quer perder nem mais um dia. E é ainda (muito!) mais exaustivo pra quem ainda não viveu ou entendeu tudo isso. Pra quem está formando a sua identidade, pra quem depende da família, pra quem vive num ambiente opressor...
Ser gay é tranquilo (e até divertido), crescer gay que é uma bosta! Crescer gay é viver todos os dias sob a mira de um revólver empunhado por você mesmo, rezando pra ninguém esbarrar no gatilho.
Mas ser gay é também um ato político. Ser gay mesmo, bem gay, o mais gay possível! Ser gay advogado, gay cabeleireiro, gay professor, gay cantor, gay mecânico. Ser gay em todas as profissões e em todos os lugares. Naquele dia, enquanto eu tentava argumentar, meu pai me pediu exemplos de gays bem sucedidos nas carreiras jurídicas e eu não consegui pensar em ninguém. E não é porque não existam, a gente conhece um monte. É porque me faltou, naquele momento, uma referência forte, um nome que encerrasse aquela discussão sem cabimento.
Desde então, eu dou especial importância à representatividade. Eu sei como é importante ocupar (todos) os espaços. E, para o arrepio de familiares e amigos (que eu sei que, de alguma forma, querem me proteger de um mundo LGBTfóbico – e eu agradeço), eu decidi ser o mais gay que puder. E o melhor gay que eu puder, assim como tento ser melhor profissional, melhor filho e melhor amigo a cada dia. Do meu jeito (cheio de falhas), mas ao extremo. E com empenho. Sem medo, nem constrangimento. Não estou dizendo que exista um jeito certo de ser gay. Não existe! Se você é gay, o certo é só ser você mesmo. Como você quiser. “Já que sou, o jeito é ser”, né?! Já dizia a Lispector. E ser com orgulho, eu acrescentaria...
Porque, para cada adulto gay que se esconde, existe uma criança gay buscando inspiração. Uma criança gay que talvez queira ser astronauta e, infelizmente, vai ouvir de muita gente ainda que só pode ser estilista, até ver em você um exemplo.
Representatividade importa (também por isso)!!!
Quem dera eu tivesse um Pabllo Vittar na minha adolescência... (um Jean Wyllys, um Pedro Almodóvar e tantos outros, não necessariamente famosos, que eu hoje conheço e tenho o prazer de conviver – e poder admirar de perto).


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